Poetas sem Fronteiras
Blogging in the Wind

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Santanás

                                    
                                      "Pour ton honneur à ne paraitre
                                                    Jamais à la télévision
                                                    Thank you Satan"
                                                            Léo Ferré
 

Só os normais
Estranhos seres
São felizes

Não sofreram mãe louca
Pai bêbado e suicida
Filho delinqüente
Não amargaram a casa dos outros
Nem choraram doença desconhecida
Eles
Fartos de roupas e sapatos
Viveram os dezessete rostos da alegria

Eles que nasceram com a bunda para a lua

Eles
Os normais
São amados até o punho

Homens vestidos de trovão
E mulheres relâmpagos

Altos funcionários, se querem um emprego
Galantes playboys, se não querem

Eles são felizes como as aves,
Os estrumes, as pedras

Mas que dêem passagem aos que fazem os mundos,
As sinfonias, os sonhos, as palavras
Que destróem e constróem

A esses, mais loucos do que as mães
Mais bêbados que os pais
Mais delinqüentes do que os filhos

E muito mais
Devorados por amores calcinantes

Que a esses deixem ao menos
O lugar no inferno

E basta

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Paineiras



veja o lugar tranqüilo   uma relva de montanha   não sei
na cidade desconfio   fico olhando para os lados   mesmo
distante da vista chinesa   bem longe desta cidade   eu
gostaria de ficar com você   afastado daqui
não há fichas de registro   não precisamos comer o farnel
na mesa do imperador   pergunto agora   você quer vir
comigo?
não responda
fique assim mesmo   escute ainda outras coisas
escute ainda outras coisas   veja as marcas   fictícias
trinta e oito?   apenas duas se confundem   o tiro
na mão de minha mãe entrou-me aqui no peito   marcou-me
de amor pelo meu pai
era médico e curava crianças antes de se meter com a bala
encontro-o algumas vezes quando vou comprar jornais   são
boas pessoas
giram muito essa manhã   as pessoas
os animais e o tiro   observo-os pelo canto da boca   meus
dentes
tentam captá-los   não responda ainda   pode ser
que chova muito   não serve de real esse solzinho geográfico
nem a cicatriz das folhas   nem sua face sardenta
à maneira da flor livre da campanha   o verde
me faz pensar   ficar com você aqui
e agora de olhos fechados por querer
a borboleta é azul   ela podia voar   diga pra mim
dentro da caixa podemos ficar quanto tempo
antes da coleção completar-se?   as pessoas e os animais
escorrega de você um pozinho gostoso   beijo sua boca
eu sinto você   ah!  como eu sinto você!
FOTOSSÍNTESE   veja o lugar   talvez uma relva
molhada por animais exigentes   repare agora que estamos
ficando distantes
não há vestígios   até o céu tem outras nuvens   sinta o fogo
escute ainda outras coisas   leia este livro escarlate com
asas imprecisas
fique assim mesmo   você fica muito bem
com antenas cor de prata

Prenda-me

                                                  Para Maria Helena


A intempestiva presença
Do tempo não impede
O suave sopro das bocas

No eco do Minuano
Retorna a notícia da ave

Perdidas penas preciosas
Procuram o ciúme do Sol
          (e queimam)
Mantém o sonho do céu
                         Incesto

O sopro na fresta
Da tua pirâmide adivinha
A antiguidade da pedra


Meu nome anunciado ao vento
Pelo tamanho do teu grito

                                   

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Engarrafado em Santa Teresa

                                                          

                                                      by appointment to
                                                       Her Majesty The Queen



Para outros reinos e possessões Rainha será sempre,
pois longo e alegre seja o destino de Vossa Majestade,
meu grande amor.

O medo que diz ainda rondar o augusto Castelo
da Aranha não me pertence mais. É de sua exclusiva
teia metafísica. Escute a Rainha-Mãe:
Quanto a este pobre Príncipe Semsorte, serve-me ainda
na pele seu nobre brazão, semeando no meu corpo
a safra de sofrimento desses dias e minutos medievais.
E nesse horror inenarrável, assisto ao Santo Ofício
do Fogo lamber a plenitude e ao contraste da minha real
paixão:

O não-acabado!

Descanse, Rainha do meu desejo! Não renascerei 
das cinzas como pássaro mitológico. Nunca mais!
Participo um parto aberto à visitação pública.
Apenas.

Bem-vinda toda essa dor mal-alojada num ventre
de homem.

Bem-vinda!







Jogo de Bicho



Noite na floresta

O lobo lambe
lembranças de amor

Aguarda o luar

Na clareira 

Iluminado

Desfilará linda
pele de cordeiro

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Macramé

  para Annie Rottenstein


Rompeu-se o alicerce
a aranha esquece a teia
no seio da tecelã

No enlace, suave como um abraço
um nó
              Fácil de tirar

Do teto à terra
a parede de algodão
assombra a visão de Deus

Enroscadas no bambu
cordas falam cobras e lagartos

Na procissão, outro nó
úmido como um pelo na pia

O nó
ciúme único da viúva negra

O vento que sopra das bocas
promove a fresta embandeirada