Poetas sem Fronteiras
Blogging in the Wind

domingo, 22 de julho de 2012

Movimento

Gustave Coubert


Do etéreo calor profundo
A alma nasce no mundo
Encontra uma vida só
Ama sofre vira pó

Transformação - elevação...

Dada à estatura que atenta
A visão é circular
O globo corre é placenta
Do homem do ser singular

Revolução - transmigração...


Serpentecostal




Aqui, o arsenal do drama
                          do dream

O melhor da classe dos desesperados

Aqui, "God shave the queen!"

Ou, como diz Ismael Nery:
       "Não quero ser Deus
         por orgulho!"

Cidadão horroris causa
Aqui, a Nero o que é de Nero

        Tudo enzima!!!
 
Mau gosto não se discute

Aqui, sorri Maiakovski:
         "Comigo a anatomia enlouquece
           Sou todo coração!"

      Boa Noite!       
  Daqui a pouco a gente sai!   

domingo, 1 de julho de 2012

Ode à Rainha


Castelo é uma hierarquia
A escada começa na torre
 É escala dolorida
A volta é a fuga  
 Tocata de Bach

E a escada, branca

De vidro amarelo faiscante
Moído no engenho de mel
Pertinho do céu

O alpinista é negro na testa

Na face pintada e morena
O traço costurado a pena

Pena de morte
Calçando botas de prego
E os olhos cegos de tanto olhar

O castelo conserva fantasmas
Armas da asma secular
Família tradicional

E o homem pára 
Observa outro lado 
Em vão
Tudo no chão é igual
Bem separado dos jardins

Anda sobre o nobre tapete
Sobe e pisa a superfície lousa
Tranparente de luz
- o reflexo é o sexo: mulher
  vestida até o pescoço da cisma

A escada é mulher

Pura até quando a pureza é cisne
Ordena

O ordenado fica mudo
Não vê segundo degrau
Certeiro passo impresso
Na pressa da arrumação

A escada então rola
É rolante

Desce adiante do castelo
Assustadoramente
Leva nas entranhas pés arranhados

Sentindo medo descalços
Do sangue pisado entre os dedos

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Niver


Vox Populi




Deus não ajuda
A quem cedo madruga

Porque a vida 
Das coisas dadas
Prontas e tabeladas
Interessa ao rei e à rainha
Daí toda a ladainha

De uma maneira ou de outra
Quem tudo quer tudo vai ter

É só querer
Prestar atenção
Ao osso
Ao cão
Que ladra e que morde
O calcanhar do pé embotado

O dinheiro não traz
Faz
A felicidade dos últimos

Dos primeiros locadores
Nas casas de banha dos
Poucos que comem muito

O salário empobrece o homem

Em terra de reis cegos
A visão é clandestina
Intestinal
Mina a riqueza do castelo
Rouba da virgem menina dos olhos grandes

O pássaro inerte na mão
Está morto
Não pode voar
Valem mais os do alto
Os do assalto
Tecendo ninhos
Nas montanhas nas florestas
Nas cidades e nos campos

Aos trancos e barrancos
Aos trancos e barrancos

Antes nunca do que tarde
Com o alarde
Da vida tudo se leva
Com aço
No tempo e no espaço

Quem espera não alcança 

14.08.1970

quarta-feira, 20 de junho de 2012

O Retrato de Wilson Grey




Tempo

É apenas um risco mínimo
Cortado de ontem pra hoje
Na epiderme da minha cara

Uma linha em torno do olho aberto
Simples e bastante enquanto vestígio

Um ríctus branco irregular
Paralelo de outra cicatriz
Que aumentou com a idade
Lembrando a dentada do cão

Apenas uma calha de carne
Para a lágrima correr eventual
E secar e esquecer no lugar certo
O sal do desfiladeiro
Como advertência à felicidade

Apenas e somente apenas um risco
Meandro sem margem no meu rosto
Escutando adiante a queda brusca
Que impulsiona absurda espera
Ao encontro da represa principal

Um risco
No meu retrato de vidro

Assim como se fosse uma rua
No sorriso de Dorian Gray